A todo momento somos estimulados por cores e contrastes que configuram as imagens à nossa volta. Reconhecemos desde paisagens naturais e ambientes construídos até composições virtuais nas telas dos aparelhos eletrônicos.

cor

Tanto nos cenários reais quanto nos virtuais, a percepção visual dos espaços, dos objetos e das próprias pessoas é deter-minada pela presença da luz.
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Nossas retinas, que são camadas de células sensíveis à luz presentes em nossos olhos, identificam cores em diversas nuances de claridade. Nos cenários reais a luz captada pela retina é refletida pelas superfícies dos corpos, nas telas eletrônicas a imagem resulta da emissão direta de luzes coloridas.

As cores não só acrescentam informação à percepção do nosso habitat, como também constituem um estímulo vital. Para uma pessoa com visão normal, a subtração das cores dos objetos, dos alimentos e dos seres vivos induz à tristeza, monotonia e falta de interesse. Em determinados contextos, a falta de cor  pode sugerir um ambiente insípido, uma face apática ou mesmo a morte.

Um simples dia nublado, ao filtrar a luz solar, reduz a intensidade das cores e contrastes. Esse efeito já é suficiente para que muitas pessoas se sintam desmotivadas ou até deprimidas. Ouvimos muito falar sobre a influência isolada de cada cor, mas o que realmente conta não é o efeito de cada cor isoladamente, e sim a composição de todos os tons de um cenário, a forma como estão distribuídos no espaço e os contrastes que foram criados. Ambientes com fortes contrastes de cor e claridade nos deixam mais despertos e apreensivos, já que a percepção das diferenças constitui o nosso maior interesse neurobiológico. Por outro lado, contrastes sutis induzem, com maior efeito, ao relaxamento. 

Nos cursos do Universo da Cor (www.universodacor.com.br) o meu principal objetivo é fazer com que os alunos entendam com profundidade as leis neurobiológicas que regem a nossa percepção visual. Através de exercícios com o Kit Projetando com a COR eles experimentam combinações de cores e compreendem a relação entre os contrastes para poderem projetar com mais segurança e compor cenários prazerosos e criativos. Sem estabelecer regras para a combinação de cores, a proposta didática é ampliar as possibilidades associativas entre as tonalidades, compreendendo sua interação, seja na reflexão cromática de um projeto gráfico, arquitetônico, ambiental ou industrial. 

Curso Projetando com a COR, Universo da Cor, set.2012
Curso Projetando com a COR, Universo da Cor, set.2012

A sensação da cor é um presente da evolução. Ou seja, é uma capacidade que resulta de um longo processo evolutivo. “Grande parte dos mamíferos não enxerga as cores, ou melhor, não as diferencia. Eles possuem apenas o sistema visual denominado pela neurobiologia como “where system” (sistema onde), especializado na percepção de luz e sombra e nas construções de movimento, espaço, posição, profundidade, distinção figura-fundo e organização global da cena visual. Já o “what system” (sistema o quê) – sistema de informação visual associado à distinção das cores –, que é bem desenvolvido nos primatas e em nossa espécie, formou-se a partir de um processo evolutivo mais recente que se sobrepôs ao primeiro (sistema onde), conferindo-nos também a capacidade de distinguir os comprimentos de ondas, reconhecendo cores e objetos (incluindo rostos). Esses dois sistemas visuais paralelos extraem informações distintas do ambiente e constroem, em diversas áreas especializadas do nosso cérebro, todas essas dimensões do visível.”¹
Em 
“A escalada do monte improvável”², uma defesa da teoria da evolução, Richard Dawkins dedica um capítulo aos vários caminhos evolutivos do olho, mostrando as suas diferentes funções e características. Ele faz, por exemplo, uma interessante comparação entre o olho facetado de um inseto e o olho humano. O olho do inseto, embora apto à percepção da luz ultravioleta, que é invisível para nós, ocupa uma área enorme da cabeça, detecta com eficiência os movimentos, permitindo ao seu portador uma varredura de quase 360 graus – o que torna facilita a fuga destes pequenos seres ao menor sinal de mudança no cenário. Os olhos humanos, por sua vez, sem a visão abrangente do inseto, restringem-se a uma visão frontal; mas especializaram-se para a percepção da profundidade e para o reconhecimento de objetos e rostos com grande acuidade. 

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As cores constituem uma sensação que dividimos com algumas outras espécies, como os peixes, pássaros e insetos, além dos primatas. O que nos faz pensar que, para além das sua funções biológicas, são uma fonte de prazer visual que temos o privilégio de desfrutar!

1 – BARROS, Lilian Ried Miller. “A cor inesperada: uma reflexão sobre os usos criativos da cor”. Tese de Doutorado/ Área de concentração: Design e Arquitetura – FAU USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Orientador: Silvio Melcer Dworecki. São Paulo, 2012.

2 – DAWKINS, Richard. “A escalada do monte improvável”, tradução Suzana Sturlini Couto, Ed. Companhia das Letras, São Paulo: 1998.

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